Manifesto Pretuguês
No dia 22 de novembro de 2025, aconteceu em Montreal a inauguração do projeto Racines Cor d'Anil, idealizado pela artista e fotógrafa Renata Carmo.
No projeto, Renata mapeou a população afrobrasileira em Montréal e lançou uma série de vídeos no Youtube (você pode clicar aqui pra assistir) na qual em cada vídeo uma pessoa é entrevistada, contando sua trajetória no Brasil até o Canadá, dividindo com ela e com os expectadores histórias de vitórias, dificuldades, barreiras e reflexões sobre ser uma pessoa negra em diáspora contemporânea.
Mais do que uma inauguração, o evento foi um espaço lindo de encontros, afetos e celebrações.
Ao conhecer o projeto Letra Raiz, que também carrega racines no nome, Renata imediatamente percebeu que nós duas temos, cada uma com sua linguagem, o mesmo propósito: celebrar nossas origens, criar um espaço de aquilombamento no qual sejamos protagonistas da nossa própria história.
Eu tive a honra de ser convidada para participar lendo um texto inédito e compartilho com vocês agora:
Manifesto pretuguês
por Emanuella Feix
A antropóloga Lélia González cunhou a palavra “pretuguês” pra defender a ideia de que, no Brasil, nosso português é preto.
Com todo respeito a você, Camões, que afundou num navio e saiu nadando com o braço pra fora, segurando a impressão única dos Lusíadas que seria no futuro conhecido como o fundador da literatura lusófona, mas depois que os seus invadiram nossa terra, dizimaram nossos povos, expropriaram nossas riquezas, traficaram milhões de pessoas em navios, impuseram sua fé, sua língua, seus prenomes, sua música, aconteceu uma espécie de vingança silenciosa.
Silenciosa porque de fato ninguém ouviu o soluçar de dor no canto do Brasil. Mas ele tava lá. E ele foi resistindo, resistindo, se reinventando, e talvez a vingança maior seja a reapropriação do português como elemento de sobrevivência simbólica de uma nação que se quis apagada.
Nosso pretuguês é sincretismo, é Jesus com Oxalá, é Santa Bárbara com Iansã e sua força impetuosa, é Nossa Senhora com Oxum entrando no mercado dançando sem se importar com quem tá olhando.
A ousadia disso.
Nosso pretuguês é bicicreta, é Framengo, é o escracho da erudição camoniana.
Mas não apenas o escracho da erudição, é a reapropriação dessa erudição, da sabedoria ancestral, é Lélia, é Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, Milton Santos, é Carla Akotirene, produzindo conhecimento e questionando a hegemonia do pensamento que vocês autointitularam como exclusivo.
Nosso pretuguês tem a força do banto, do iorubá, do jeje, do tupinambá, do quimbundo. Aliás, bunda vem do quimbundo.
Como a Lélia já disse, o português de Portugal não diz bunda nem desbunda.
Nosso pretuguês tem bunda.
Nosso pretuguês tem a língua cifrada do pajubá que transforma o que foi posto como a marginália das ruas em uma seita da qual poucos têm o privilégio de participar.
E vejam só, eu falando apenas de palavras, mas é que a nossa língua funciona como uma espécie de concretização, de canal de expressão da nossa identidade, e nossa identidade tem cachaça, cachimbo, cafuné, dengo, batucada, muamba, moleque, tem Muzema, tem xereca, minha palavra favorita. Tem borogodó.
Tem cheiro no cangote.
O pretuguês precede o povo ou o povo precede o pretuguês?
Não sei, e pouco importa.
Nosso pretuguês é a prova viva da sobrevivência, sobrevivência à escravidão, à tentativa de apagamento da nossa história pelo ministro Rui Barbosa pós-abolição, à tentativa de embranquecimento da população pela eugenia prevista em Constiuição, ao epistemicídio europeu, aos apagamentos que são simbólicos, mas também concretos: não nos esqueçamos que há menos de um mês houve a maior chacina da história do Brasil, provando qual é ainda a carne mais barata do mercado.
Não se trata de romantizar a escravidão nem de celebrar o sofrimento das comunidades negras e indígenas que perduram desde o Brasil colonial até hoje: mas de honrar a memória dos que vieram, dos que apesar de toda a repressão, deixaram o melhor de si como legado nessa vingança silenciosa, um legado que está em todos os lugares, nas palavras, na culinária, na música, na malemolência.
Trata-se de honrar a filosofia sankofa: nunca esquecer de onde viemos para que possamos seguir adiante. Seguir adiante praticando aquilombamento.
Aquilombamento é cuidado mútuo, proteção, enfrentamento, festividade. Parece contradição, mas é na festa que a gente se organiza, que perpetua nossa identidade, que se fortalece através do afeto e da alegria, pra continuar a luta.
A festividade é um poder desestruturador da confiança dos grupos dominantes.
E que aqui, em diáspora contemporânea, que a gente nunca deixe de se aquilombar nem de festejar.
Nem que seja na força do ódio.
Eu termino esse manifesto ironicamente evocando um poeta português, Fernando Pessoa. Ou melhor, me reapropriando dele. Quando ele diz que “minha pátria é minha língua”, não poderia concordar mais. Minha pátria é minha língua, e minha pátria é preta.